Poesias de Antonio Fernandes do Rêgo

LIVRO TÍTULO:        TARDE DE PRIMAVERA

(Uma canção de amor pra ser vivida)

 

De:Antônio Fernandes do Rêgo

 

Autor de “Ventos do Outono”

 

 

POR QUE “TARDE DE PRIMAVERA”?

 

Um dia, lá pelos idos de 1962, à bordo de um navio de guerra, onde servia, em viagem, eu me achei sentado ao chão do convés, só e triste. Era uma tarde morna em que o azul do céu era pálido e sereno; o sol qual um vulcão em chamas mergulhava no oceano lá no horizonte e o crepúsculo do ocaso espalhava-se sobre as cabeças das ondas dourando-as e trazendo-as ainda mais amenas.

Ante aquela paisagem: acima, os mistérios vindos do céu, a imensidão do infinito; e ao meu redor, sem ter a visão da terra, só a grandeza do mar infindo, bateu-me ainda mais cruciante aquela solidão.

Foi ali, nos verdores de minha mocidade, que senti saudadeaté das saudades que eu tinha. E com as lágrimas que corriam escrevi uns versos que os chamei de “Tarde de Primavera”. Foi o meu primeiro e verdadeiro poema, falava da minha terra, de um amor que ficou pra traz e daquela tarde bela, tinha uma poesia pura e simples como uma cantiga decriança, mas foi nela que eu encontrei a minha musa primeira e que me acompanhou através dos anos.

Mais adiante e em outras circunstâncias escrevi algumas estrofes diversas, e vivi muitas tardes de outras primaveras.

E tempos depois, numa travessia de pedras e espinhos, tristeza e desalinho, rasguei aquela página entre outros versos, e a queimei junto ao fogo da paixão que me ardia no coração.

Hoje, era somente aquela canção tão pura e tão terna que eu queria ter em troca para oferecer-lhes aqui, em vez destes versos a retalhos deste livro. Na sua falta trago estas que são as rosas da primavera esmaecidas pelas fráguas dos verões da vida.

Tenham, porém, certeza, quando as desfolharem, que foram colhidas com o que tenho de mais sincero no pego de minha alma.

 

Natal, 17 de setembro de 2015.

Antônio Fernandes do Rêgo

 

 

MEUS CANTARES

 

Se acaso em teus caminhos encontrares

Este poema simples, Meus Cantares,

Guarda-o bem em teu seio com carinho;

Se a rima deste vate inda te acalma,

Sabes que fora escrito em pergaminho

“Das paredes dos becos de minha alma”.

 

Flores de que tirei os seus espinhos,

E que ao vento eu joguei em desalinho,

Da fonte onde deixei as minhas mágoas,

Donde te segredei meus lindos sonhos,

Que nevoam meus olhos rasos d’água

Em brumas de um passado tão risonho.

 

Eu me lembro, éramos quase crianças,

Mas se este verso ainda não te alcança,

É que minha alma que agora emergida

Não consegue te lembrar nesta lira,

Nossos caminhos, as veredas de ida

Ao rio passando pelas jandaíras.

 

 

QUEM SOU EU

 

Neste farrapo de verso,

Venho dizer quem sou eu:

Sou poeira do universo,

Que a natureza moeu.

 

Não sou menos, nem sou mais,

Sou peça desta engrenagem;

Quem este verso refaz

Que vaga nesta viagem.

 

No riso que a dor me cura,

Na voz que me comoveu,

Escondo minha tristura,

Palhaço do coliseu.

 

Neste rastro de ternura,

Sou fagulhas de pensar,

Pedaços de Criatura

Procurando o verbo amar.

 

Sou quota da humanidade,

Um punhado de paixão,

Numa parte liberdade,

Noutra parte pé no chão.

 

É o que tenho e é o que sou,

Muito ou pouco, mas contudo

Com uma pitada de amor,

Pouco é muito, mas é tudo.

 

TARDE DE PRIMAVERA

(Uma canção de amor pra ser vivida)

 

Eu pararia o Sol na primavera,

Se Deus me desse o tempo pra eu parar,

E ainda nesta tarde de quimeras,

Teria um girassol pra te ofertar.

 

Se neste ocaso alcançasse um arco-íris

Esperaria em baixo pra te amar,

Para ver-te em delírios teus sorrires,

E neste hino de amor te eternizar.

 

Viverias tua vida em meus sonhos

E eu viveria sonhos em tua vida,

Não morreria em teus lábios risonhos,

 

Os sonhos desta vida compartida,

Não seriam vãos versos que eu componho

Nesta canção de amor pra ser vivida.

 

AOS VINTE ANOS

 

Aos vinte, li “Lira dos Meus Vinte Anos”,

Comoveu-me um transtorno de poeta,

Li líricos e sátiros profanos;

Hoje eu escrevo alguns versos sem meta,

Procuro das palavras os arcanos.

 

O “ser ou não ser” sempre está comigo,

E por viver no vale da verdade

Tenho mais livros e menos amigos,

É meu orgulho e não passa a humildade,

Sou atual, mas em sistema antigo.

 

Nada mais quero além da poesia,

Palavras em tapetes estirados

Que me trazem fantasmas, fantasias;

Conduzo nos meus versos, pendurados,

Sonhos dourados, mil alegorias.

 

Eu não sei se é ventura ou infortúnio,

Mas me denuncio mais esta loucura:

Vivo a velar noites de plenilúnio;

No canto da cascata que murmura

Encontro meus momentos oportunos.

 

Sei quem sou onde meus versos velejam:

Nas mensagens de amor que já voaram,

Ventos que lá das fontes murmurejam,

Baladas que em minha alma já dançaram,

Saudade em flor de amores que flamejam.

 

Não aos lauréis! dispenso os diademas!

Eu não pretendo ser um samurai,

Mas tenho escrito livros de poemas.

Meu filho vai dizer: “Este é meu pai!”

Pois tenho filhos, dádivas supremas.

 

DUAS IDADES

 

Nós dois sentados lá à beira do rio,

Só eu e tu, comendo duma fruta

Roubada da árvore do amor, que brio!

Não havia fala, só uma reza bruta.

 

Depois citávamos cordéis ao vento,

Não havia planos, éramos um só,

Nós unidos num mesmo sentimento,

A sós, deslizando sonhos num trenó.

 

Sei que a marca dos tempos predomina,

Mas não tirou de ti tua alegria,

Nem o brilho do riso da menina

Dos verdes anos lá das cercanias.

 

CASTELOS SOBRE AREIAS

 

Bendito quem sempre espera

Se não frutos do verão,

As flores da primavera,

Sem importar se frutos dão.

 

Salve quem constrói castelos

Nas areias, com seus cavalos,

Mesmo que não vão mais vê-los,

Que as ondas vão derrubá-los.

 

Riscam na praia seus versos,

E bradam loas aos céus,

Inda que os vejam reversos

No caudal dos escarcéus.

 

ANJO DA GUARDA

 

Comparo a luz dos olhos teus

A dois sóis num amanhecer,

Se me fitas nos olhos meus,

Deixas a mim me enternecer,

 

Luz que guia, luz que reluz.

 

És como uma pedra safira,

Em meu caminho a lucilar,

Estar sem ti, tudo é mentira!

Não há o sol, nem mais luar,

 

Anjo guia que me conduz.

 

Estrela vésper que me alumbra,

Sou a sombra de tua sombra,

És a aurora que me deslumbra,

Eu sou o pastor que vive a alfombra,

 

Tu és a estrela que me traz luz.

 

CASA DE CAMPO

 

Lembrei-me de um lugar puro e sereno,

Sonhei com uma vida na fazenda,

Com o relógio lento e sem agenda

Por entre sombras de um sossego pleno.

 

De manhã, do portal de nossa choça,

Vendo os caminhos, o rio e a ponte,

Os pássaros voando e o verde monte,

Saio com o cão amigo lá pra roça.

 

À tardinha ao múmur das cachoeiras,

Sonhando, relembrando os tempos dantes,

Só eu e tu, eternamente amantes,

Se opondo ao medo, lá nas ribanceiras.

 

Na trilha que contorna o grande lago,

Vamos ainda eu e tu e a sorte minha

Acompanhando o voo das andorinhas

Como num pátio de um palácio mago.

 

Depois de visitar extensos campos,

Vejo à noite as estrelas tão brilhantes,

E no seu manto escuro os diamantes

Das lanternas azuis dos pirilampos.

 

Ah, apenas sonhei por um segundo,

Seja bendito quem criou a lira,

Santa esperança, divinal mentira,

Que me dar força a suportar o mundo.

 

VERSOS DE AMOR

 

Faço versos de rimas tão iguais,

E eles são tanto iguais quanto você,

Perfumados nas flores de uapê,

Do seu sorriso, ao brilho dos cristais;

 

Tocam as melodias de sua voz,

Banham-me ao lume de sua alma branca;

Entre os compassos de uma fala franca

Entoam madrigais de amor por nós.

 

Não, não fique à beira deste lago a sós,

Deixa-me de ternura estes versos cheios,

E sob a tumescência de seus seios,

 

Acolha esta canção de amor por nós,

Que eu navego ao remanso do seu corpo,

E me ancoro às amarras do seu porto.

 

VELHO IPÊ

 

Oh velho ipê vergado pelo tempo,

Despido, que tanto teima em florir!

Tu envergas, mas acenas pro porvir,

Eu também já caminho em desalento;

 

Tu te refletes sobre as águas calmas,

Como fora uma criança a sorri,

Também assim vivo eu a refletir

Nos espelhos do lago de minha alma;

 

Te ampara a tua seiva, teu vigor

Segura-me o meu Anjo, meu Senhor,

Porque ferve em meu peito a minha fé.

 

E sem saber que isto é um sonho acordado,

Um dia me vergará o corpo alquebrado;

Que tombe ao chão, mas morrerei de pé.

 

O MEU PÉ DE TRAPIÁ

 

Lá, na terra onde eu nasci,

O canto alegre das aves

Fazia a mata bulir,

E o sol refletia às águas

As cores do colibri.

 

Não me canso de lembrar

Que junto aquelas palmeiras

Cantavam os sabiás,

Ali na margem do rio

No meu pé de trapiá.

 

Qual um lépido jaguar

Atravessando a ribeira,

Eu corria lá pro pomar

Pra colher frutos maduros

No meu pé de trapiá.

 

Lembro os dias que folguei

Pescando lá na lagoa,

Lembro os piaus que fisguei

Ouvindo os sapos teimarem:

— “Foi!” —“Não foi!” —“Meu pai foi rei!”.

 

E ouvia da serra azul

O canto da sururina

E o vento vindo do Sul,

Soprando ameno e sutil

Nas frondes da palma azul.

 

Fiquei triste que ao passar

Lá na terra onde eu nasci,

Não pude mais avistar

Aquelas lindas palmeiras

Nem meu pé de trapiá.

 

Dói-me a saudade de lá;

Cadê aquelas palmeiras

E o canto do sabiá,

Que vinha lá da ribeira,

Do meu pé de trapiá?!

 

PARTIDA

 

Aquela lágrima que em meu ombro deixaste,

Ela me faz lembrar a flor do girassol,

Que para o ocaso pende a fronte sobre a haste;

Calado trago-a ainda, no meu cachecol.

 

Dobro-me à forma vacilante do teu vulto.

Sei que não é a lágrima azul da saudade,

O que mais dói em mim neste soluço oculto

Da partida, é justo este vácuo que me invade.

 

É a tua lágrima que eu não consigo enxugar,

“Vivo a buscar o que encontrei em ti um dia:

Um perfume de flor, um sorriso, um lugar”;

 

Os instantes de amor, de sonhos, fantasia…

Não sei mais qual a lágrima hei de suplantar,

Se é esta, a tua, ou a de minha nostalgia.

 

QUEM VAI ME PERDOAR

 

Quem lá eu deixei no cais

Não vai mais me perdoar,

Porque naveguei demais

E não pude mais voltar.

 

Quem me esperou noutro cais

Não vai mais me perdoar,

Que nas ondas tropicais

Naveguei num outro mar.

 

Lá quem esqueci no cais

Não vai mais me perdoar,

Que lá noutros arraiais

Foi que eu aprendi a amar.

 

E cheio de tantos ais,

Quem vai mais me perdoar?

Quem lá eu deixei no cais,

Ou quem me ensinou a amar?

 

DEXEI MEU CORAÇÃO EM SANTA FÉ

 

Por entre o azul do céu e o verde da montanha,

Vi tua bela imagem de mulher serrana,

Disposta à luz do sol que aqueles montes banha,

Corando em bronze a tua tez de castelhana.

 

Donde se avista o teu lar e as toscas cabanas,

Vem com os raios o azul que a paisagem entranha,

Delir-se em teus cabelos que o vento afoito abana,

Ungindo o encanto que te afaga e te acompanha.

 

Apresso o trote ao perceber que tu me esperas;

Não parece real, era quase ilusão,

Eras tão doce qual rosas de primavera,

E tão madura quanto as frutas de verão.

 

Foi esta imagem que prendeu-me a ti, mulher,

E fui tocado por uma paixão tamanha,

Que te deixei meu coração em Santa Fé

Lá, entre a várzea e o vão verde da montanha.

 

DIA DO AMOR (Acróstico)

 

(D) Daria tudo para te amar

(I) Indo além do infinito,

(A) Ainda eu posso jurar:

 

(D) De agora em diante, repito,

(O) Ouça o eco do meu grito:

 

(A) Amei, amo e te amarei,

(M) Mulheres eu conheci;

(O) Onde andei não encontrei

(R) Rastros de uma igual a ti.

 

SONHOS QUE SÃO SENHORES

 

Ah, se um dia fosse esta humanidade em tela

Racional e mais humana e menos bélica,

Nem precisaria em cada monte uma capela

E ainda para cada esquina uma evangélica.

 

Menos materialistas e menos ateus,

E se formasse em cada lar uma catedral,

“Uma única diocese e um só bispo – Deus”,

E Jesus, único Profeta, Universal…

 

Não haveria maldade, nem os dissabores

Da vida. Mas queria só falar de amor

E acabei por fazer dos sonhos meus senhores,

E sonho sempre ao ver de novo o sol se pôr.

 

O PALHAÇO

 

Louco, apaixonado, cego de amor;

O cupido lhe acerta a seta incerta,

Frígido coração lhe atraiçoou;

Tenta esquecer aquela chaga aberta,
De palco em palco a fazer estripulia;
Novo judeu da lenda secular,
Burlando o amor, paixão lhe feria;
Passa o tempo, e sua dor se faz cessar…
Mas, um dia da plateia, de repente,
Vem um olhar teimoso a lhe fitar:
Era a ilusão passada à sua frente;

Uma gargalhada rouca soprou no ar,
E enquanto gargalhava persistente,
Sente à face uma lágrima rolar.

O POETA

 

Como voo de passarinho,

Livre, leve, encantador,

É o lúrido aedo, sozinho,

Contemplando o sol se pôr,

 

O canto da ave o encanta

No galho da laranjeira

Deixando saudade tanta

Daquela vida brejeira.

 

São águas da cachoeira

Em murmúrios entre a mata

Com o sabiá-laranjeira

Executando uma sonata.

 

É da natureza um mago,

Tudo em seu entorno é graça,

Das águas azuis do lago

Ao curso do rio que passa.

 

Vento que sopra no campo

Afagando a plantação,

Lanternas dos pirilampos

Rasgando a escuridão.

 

Em tudo ele vê amor,

O mausoléu Taj-Mahal,

Signo que o mundo encantou,

Vê em qualquer catedral.

 

E vai o poeta caminhando,

Lá vai o vate sonhador

Leva a vida disfarçando,

E vai driblando a sua dor.

 

DISSE GALILEU

 

Em torno do Sol,

Gira a Terra no céu,

Gira o girassol,

Gira o carrossel.

 

Gira alguém que dança

Na festa bacante,

E gira a criança

Na roda gigante.

 

Gira a flor nativa,

E gira o pião,

Gira a roda viva

Do meu coração.

 

Gira o tempo e o vento

Gira tudo… A vida,

A asa do cata-vento,

E a bola da partida.

 

Da inquisição à ira

Disse o Galileu:

“Gira! A Terra gira!

Gira o astro no céu!”

 

Porém frente à pira,

Disse e corrigiu:

“Digo que não gira,

Mas se move, ouviu!”

 

O CARNAVEL E O BOTOX

 

Com a advento do botox,

Da plástica e silicone,

Depois de um ligeiro toque,

Se consegue até um clone.

 

E não há mulher mais feia,

Pois mesmo em qualquer rincão

Qualquer peixinho é sereia

Se tiver algum tostão.

 

Com dinheiro pra gastar,

Se for a um cirurgião,

Será princesa xuá

Ou rainha do barracão.

 

À ENFERMEIRA NO SEU DIA

 

Cumpres o mandamento de Jesus:

Praticar o amor e a caridade.

Tu o fazes porque levas a cruz

Dos que tem a divina claridade.

 

Escolheste o plantão na noite escura

Perto do sofrimento e da agonia

Daquele ser que aflito espera a cura,

Tu vais e vens rondando a enfermaria.

 

Deixaste pra cuidar dos pacientes

O sono sossegado do teu lar,

Caros entes que esperam impacientes

De novo o amanhecer pra te abraçar.

 

Teu branco traz a paz a quem tem dor,

Para quem está junto ao sofrimento,

Não é só por dinheiro, é por amor;

A vida não é só de bons momentos.

 

Quando teu corpo curva-se a algum doente

É como quem dirige uma oração

Ao seu Senhor num ato penitente;

Abençoada, então, seja a tua ação.

 

A FOME

 

Se ele tem casa, é só o chão que pisa.

Já se foram o seu pai e o seu irmão! …

Sonho? Ele tem um só. É o que precisa:

É um arroz com feijão para um “baião”.

 

Nesta terra de gana e tanta usura,

Parece uma mentira biológica,

Porque a vida tacanha lhe estrangula.

Além da sociedade demagógica.

 

Oh Deus dos desgraçados, dos sem-pão,

Responde se é verdade: Tu o amaste?

Por que ele traz a sina da exclusão?

 

E como a flor do sol que pende à haste,

Declina sobre a dor dessa aflição.

* “Elai! Elai!” Será que o abandonaste?!

 

(*) Elai = Meu Deus (em aramaico)

 

A PAZ

 

Paz é citar frases de amores

Por cima de muros de lírios,

E neutralizar os delírios

Com as barricadas de flores.

 

Paz é num pássaro voando,

É no sorriso da criança

Trazer um fio de esperança

Enquanto rolam os desmandos.

 

Paz é ter o mútuo respeito

Para quem está ao seu lado

Para que todos sossegados

Tenham seu sagrado direito.

 

Paz é a força da oração,

É também tirar um pernoite

Com o luar na meia noite

Enquanto chora o violão.

 

Ainda é praticar o amor,

Fazer justiça social,

É perseguir um ideal,

Voar nas asas do condor.

 

Paz é a vida com denodos,

Jogar as pétalas de flores

Para quem deu gotas de amores,

Também lutar ao bem de todos.

 

Ter a ternura de um beija-flor,

Porém se indignar com a guerra

Sonhando que aqui na terra

Há de predominar o amor.

 

À MULHER

 

A mulher foi a única maravilha

Que realmente eu encontrei no mundo,

Eu atravessaria um mar profundo

Só para encontrá-la em uma ilha.

Sem ela seria tão feio o universo,

Que não valeria fazer um verso.

 

 

À LUCIANA

 

Oh filha, alma de minha alma!

Oh vida de minha vida!

Qual do vale verde a palma

Que tem beleza contida.

 

És mais bela que a beleza

Que trazes em seu semblante,

E mais pura que a pureza

Do teu olhar inebriante.

 

Esperamos-te esta semana,

De braços, de peito aberto,

Seja bem vinda, Luciana,

Que esta quinta está tão perto.

 

ABRAÇOTERAPIA

 

Abraça, mãe! Abraça o filho!

Com alegria, com seu brilho!

Abraça em palavras de amores,

Abraça o amor que te deu flores!

 

Abraça sob à luz da lua,

O teu amor que o peito estua!

Abraça o companheiro, amiga,

Abraça o amor de quem te abriga!

 

Abraça as oportunidades,

Abraça com assiduidade,

Lembra-te: não voltam mais,

É qual flechas de Karajás.

 

Abraça bem o teu irmão,

Abraça com o coração,

Abraça-o com riso incessante,

Abraça com o alô ululante.

 

Abraça forte o novo dia,

Abraça a aurora e sorria,

Abraça o sol em frente ao mar,

Abraça firme o verbo amar.

 

Abraça a vida, a tua vida,

Abraça a tua luta renhida,

Abraça o amor com frenesi,

E esta canção que deixo aqui.

 

UMA ROSA PARA MARÍLIA

 

Meu amor, te entrego esta linda flor

Pra que te lembres das mais belas cenas,

Que o tempo pertinaz não apagou:

Aquelas primaveras mais amenas.

 

Se algum dia tu ergueres tua fronte,

E vires no horizonte a tempestade,

Lembra-te, construímos uma ponte

Sobre o rio da dor, da soledade.

 

Dia dos namorados, deu na telha

De ofertar com espírito profundo

À dama mais linda uma flor vermelha.

 

Para quem tem o amor maior do mundo,

Lance esta rosa uma vivaz centelha,

Que se renove neste amor fecundo.

 

BELEZA

 

Qual a origem de tudo que é beleza?

— A lei da natureza é que traduz:

Pois assim como a chama traz a luz,

O amor conduz ao belo e a pureza,

Como o alvor que faz o dia esplandecer.

 

Uma grande obra de arte é linda e encanta,

Mas beleza não é só formosura,

Por mais bela que seja uma escultura

Não se compara ao amor da mãe que canta

Ao seu filho antes mesmo de nascer.

 

A chama que transforma as multidões,

Esta é a energia, a tocha cristalina,

Está em tudo, esta essência divina,

Até no ecrã gentil das estações;

O amor é o ocaso e o novo alvorecer.

 

BENDITO

 

Bendito o colibri do meu sertão,

“Porque vive a dois metros do chão” *

Tal poeta no ritual da ave-maria,

Que se eleva na angélica harmonia.

 

Bem-aventuradas as mulheres finas

Quais rosas-do-japão; (não a de Hiroshima),

As que evolam o olor próprio das flores;

Que alam em seus seios ofícios de amores.

 

Ó bendito condor, o rei do céu,

Que cai no verso do vate ao menestrel.

Bendito o ébrio de amor e de paixões,

Que é dele que se emanam as canções.

 

Benditos os palhaços verdadeiros

Que arrancam risos lá do picadeiro,

Porque deles é o reino da alegria

E conseguem viver na fantasia.

 

Bendito sejam loucos, sonhadores,

Aqueles de seus sonhos seus senhores

Que cravam só alegrias no coração,

Porque deles é o reino da ilusão.

 

Bendito o trovador que ao ver perdidas

Suas canções nos desertos vãos da vida,

Consegue comportar na integridade

Seus sonhos de amor e liberdade.

 

* Verso do poeta e escritor sueco-brasileiro Guilem Rodrigues Silva.

 

CAICÓ

Se forem lá ao sertão,

Lá na Flor do Seridó,

Lá vocês encontrarão

De tudo o que há de melhor:

 

Manguzá com mocotó,

Uma buchada de bode,

Ao Tempero de Caicó,

Caipirinha também “póode!”

 

Mas o que eu quero dizer,

Que não é nada de novo,

Mas que eu não quero esquecer:

É a fineza do seu povo.

 

VIAGENS (Acróstico)

 

(V) Vá muito além e passe pelo rio Sena;

(I) In loco, veja as ilhas do Caribe;

(A) Antes navegue o rio Capibaribe;

(G) Guarde contigo as fotos, cada sena;

(E) Eternize os flagrantes de beleza;

(N) Não vete a natureza que te acena;

(S) Singre as águas serenas de Veneza.

 

CASTELOS DE AREIA

 

Quantos sonhos, que estórias de sereias,

Castelos soerguidos nas areias

Nos arraiais da minha juventude,

Devaneios dissolvendo-se amiúde,

Cada lembrança ainda veraneia,

Mas nos anais o tempo faceteia.

 

É a vida, as estações, mas que seria

Da primavera e do calor da estia,

Se não soprasse o vento frio do inverno,

E depois um outono mais fraterno?

É que a calota deste mundo gira,

E não se pode dizer que é mentira.

 

TUAS COORDENADAS

 

Nunca digas que a seara está perdida,

Se não deu frutos, olhe para as flores,

Se não deu flores, olhe as folhas caídas;

Foram pra dar ao caule mais vigores.

 

Lembrasdaquela canção, tens fé em Deus,

Sobretudo, pois, Ele é a tua guarida,

Porque tu és uma dádiva dos céus,

Hás de encontrar a tua Árvore da Vida.

 

Tu tens dois pés para seguir a estrada,

Acena o braço e Alguém dará a mão,

Te ajuda a transpassar a barricada

E te mostra o caminho, a tua missão.

 

Olha à frente que luze lá uma Luz

Uma Luz que reluz e risca no ar

A letra da canção que reproduz

Trilhos da vida com um novo olhar:

 

A fé, que é esta Estrada que conduz

À vida e sempre traz nova alvorada,

E que a uma nova trilha reconduz.

Olha que n’Ele estão tuas coordenadas.

 

SUPLÍCIO DE UMA SAUDADE

 

Foi pra ti que eu escrevi

Só e triste esta canção,

Lembrando o tempo que em ti

Reinava o meu coração.

 

Eu era tanto feliz,

Vivias tu a sorrir,

Em frente as águas anis

Vi nosso amor a florir.

 

Mas veio depois o ciúme,

Fez nosso amor acabar,

Hoje inda sinto o perfume

Dos teus lábios de ambar.

 

Eu vi teu pranto rolar,

Ouvi teu silêncio doer,

Senti meu peito sangrar

Sem teu soluço conter.

 

Esta canção também diz

Do amor que nos fez viver.

Foi um tempo tão feliz!

Como pode acontecer…

 

CORAÇÃO MATERNO

 

(Às mães )

 

Abaixo do amor do Eterno

Há um coração materno,

Terno, igual a uma flor de íris,

O seu filho é um tesouro,

Sua filha, um pote de ouro

Debaixo de um arco-íris.

 

CRIANÇA

 

Quando criança pensava ser maior

Colocando o chapéu do meu avô,

Calçando os sapatos do meu pai,

Agora cresci, vejo como vai

Caminhando este mundo, sem ter fé,

Não queria pra medida do meu pé

Mais que doze centímetros, pra mim,

Que o mundo não passasse de um jardim,

 

Nunca além dos canglores de um clarim,

Só assim eu o entenderia, enfim,

Os recônditos desta babilônia.

Então, prefiro ir pra Patagônia

Ver um pôr do sol lá em Magallanes

Ou um amanhecer nos alvos Andes.

Eu vou embora lá pra Patagônia,

Quem sabe?… Vou fundar uma colônia.

 

TRISTEZA

 

Oh, diz por que será que não me deixas?

Tentei deixá-la, longe, lá pra trás,

Sob as palmeiras do rio à margem,

Mas te apegas tanto à minha imagem

Que ficas nesta tua canção tenaz.

 

Por que teimas em vir com tuas queixas?

Fica tu com o piar da cotovia,

E até as algazarras dos pardais

Que eu volto pra alforria dos portais,

Pego aqueloutra estrada da alegria.

 

Oh, diz por que será que não me deixas?

Por que me toldas a água azul do mar?

Tentei deixar-te lá naquela praia,

Mas tu ficas aqui qual um atalaia

Que vem lá dos confins pra me zelar.

 

Por que teimas em vir com tuas queixas?

Fica com esta luz de vagalume

Pra cruzares a noite fria sem lua,

Podes ficar, a escuridão é tua,

Que eu ficarei na proteção do Nume.

 

Oh, diz por que será que não me deixas?!

Fica até com o cantar do rouxinol,

Mas deixa-me a alegria no coração

E coloca nas cordas de um violão

Esta minha canção em si bemol.

 

Por que teimas em vir com tuas queixas?

Deixo-te neste lago azul marinho,

Fico com a cor de anil da antiga fonte;

Nenhum deserto, só o verde monte,

E o alegre cantar dos passarinhos.

 

Oh tristeza, por que tu não me deixas?!

Agora eu estou untado com azeite,

Não ficarás em mim por um segundo,

Há quantas maravilhas pelo mundo…

Dou-te um leito de espuma, exorcizei-te!

 

À BEIRA DO MAR

 

Vagas recordações me deu lugar

Àqueles arraiais de mocidade,

Hoje, bateu em mim uma saudade

Da praia, da areia à beira do mar.

 

Nas noites de lua cheia pra se amar,

E quando a luz trazia-nos a ternura,

Batia-me o coração em fugaz loucura,

Na praia, na areia à beira do mar.

 

Em volta, o mundo teima em relutar,

De todo pesar e apesar de tudo,

Mas é um antigo vídeo tape mudo

Da praia, na areia à beira do mar.

 

Volto lá, não me canso de lembrar

Daquela Rosa que deixei no porto,

De coração partido e quase morto

Na praia, na areia à beira do mar.

 

Não queira a solidão me desalmar,

Doce recordação que não me açoite,

Mas eu quero saber daquela noite

Da praia, na areia à beira do mar.

 

UM FELIZ ANIVERSÁRIO

 

(Ao meu neto Lucas)

 

Um feliz aniversário,

Muitos beijos, muitas flores

Junte-se esta mensagem

Ao amiguinho Lucas Torres.

 

Que nosso Deus te ilumine,

Sejas sempre este primor

E por toda tua vida

Tenha paz de um beija flor.

 

Que tu sejas bem feliz,

Que ao amor tu dês valores,

Sempre ao bem tu peças bis,

Amiguinho Lucas Torres.

 

O Luquinhas no teu dia

Tem amigos pra abraçar

E cantando em sintonia

Tem velinha pra soprar.

 

Viemos aqui te aplaudir,

Nós, amigos e genitores,

Teu feliz aniversário,

Amiguinho Lucas Torres.

 

Tão Pacata Mulher

 

Tem um grande coração,

Mas na sua fragilidade

É que esconde um furacão,

Sei que ela não tem maldade;

Por isso que eu amo Ester,

É Tão Pacata Mulher!

 

Porque é ternura e emoção,

Só reage na adversidade,

É fonte de inspiração,

Longe dela, é só saudade;

Por isso que eu amo Ester,

É Tão Pacata Mulher!

 

É como fosse um trovão

Vem aquela tempestade,

Abandono o barracão

Pra voltar depois mais tarde;

Mesmo assim eu amo Ester,

É Tão Pacata Mulher!

 

É sempre uma vez por mês,

Chega a apetite faltar,

E esta sua implacidez

Não posso diagnosticar;

Mesmo assim eu amo Ester,

É Tão Pacata Mulher!

 

Paciência… Esta viuvez…

Mas logo, logo ela volta

E a reconheço outra vez,

Aquela alegria ela solta;

Ah, como gosto da Ester,

É Tão Pacata Mulher!…

 

 

E TU, MINHA ALMA?

 

Ainda me recordo… Minhas mãos

Tão trementes naquela noite fria…

Em ti eu resvalava nos desvãos,

Enquanto a lua cheia se escondia,

 

Em meio aos nossos sentimentos sãos;

Éramos eu e tu… Louca avidez!

Nossos sonhos ali, não eram vãos.

Cada vez se excitava a tua tez.

 

Tinhas teu coração bem junto ao meu,

Não controlaste a tua rubidez,

De repente teu peito estremeceu.

 

Tudo me lembro da primeira vez,

Da vez que desnudei o corpo teu,

E tu, minha alma, lembras-te? Talvez…

 

QUARTA ESTAÇÃO

 

Era o vigor da vida em plenitude,

Era ser real, mas contemplar o mundo,

Era esperança, amar, sonhar profundo,

Era o melhor da vida, a juventude.

 

Mas ninguém viu e já era, já se foi,

Inexorável nosso tempo escorre,

Não se percebe e neste corre-corre

A primavera fez tromba-de-boi.

 

Mas sempre vem um pôr do sol, verão,

Vivemos sobre a areia dos nossos sonhos,

Vendo as folhas do outono, inda risonhos,

Da janela do trem da quarta estação…

 

AO EX-COMBATENTE

Pátria minha, não é só falar!

Por ti rasguei meu peito em sofrimento,

Fui destemido, fiz um juramento

Para em terra estrangeira te salvar.

 

Abrirei as artérias em apelo:

Veja o sangue latino que ferveu

Do lado ao companheiro que sofreu

Lá, nos feros embates no Castelo!

 

Deixei no cais em prantos minha Rosa,

Pais apreensivos, mas esperançosos

Dos feitos e triunfos mais vultosos

Como fora a tomada em Massarosa.

 

Oh pátria minha só falar não vale!

Querida terra que pisei primeiro,

Para te defender eu fui pioneiro,

Mas o último do rio Serchio o Vale.

 

Que fique na lembrança dos meninos

De hoje e das gerações que inda hão de vir

Para que a paz prospere pro porvir

Para que não haja outros Alperinos.

 

A IGREJA DO GALO

 

(À minha irmã Terezinha)

 

Ao fim da tarde límpida e serena,

Volto à basílica de Santo Antônio,

(O santo protetor do matrimônio),

Anoitecia, era a hora da novena;

 

Enquanto a torre aponta pra o infinito,

Do alto, pro ocaso, estica seu gargalo

A silhueta imponente do galo.

E esta cumplicidade aos céus eu fito.

 

Aos pés do templo à loisa de granito,

No sacrário, a hóstia consagrada;

Posta à frente, uma freira ajoelhada,

Minha irmã, que momento tão bendito!

 

SAUDADE

 

Eu amei como alguém não pode amar,

Poder sonhar assim como eu sonhei

De certo nenhum poeta sonhará,

Castelos que nas areias eu cravei.

 

“Só um louco pode amar como eu amei”!

 

Ali aonde eu cheguei ninguém jamais…

Sonhei… e sonhei mais que um trovador,

Com todo o anseio que me foi capaz,

Para ela eu cantei mil canções de amor,

 

“Ali onde eu cheguei, ninguém chegou”!

 

Seria um andarilho no deserto

E ainda correria a eternidade,

Se ainda soubesse eu que teria certo,

No fim daquela estrada, à claridade,

Uma mulher com nome de Saudade.

 

IDADE

 

“Juventude não é raça”,

Nem outra espécie humana,

É fração de tempo que passa

No instante de uma pestana.

 

Chama que vira fumaça,

É como ilusão que engana,

É água do rio que passa

Que a natureza engalana.

 

Pode ser hoje vinte anos,

Amanhã já são quarenta,

Mais adiante veteranos

Contando já os sessenta

 

Hoje tão efervescente,

O jovem desta manhã,

Como estrela cadente

Será o idoso amanhã.

 

Não se pense que isto é triste,

Por isso que o mundo gira,

Pra isto a natureza existe,

Se faça dela uma lira.

 

Sedentarismo é fadiga

E atividade é a saída

Pra se ajeitar a barriga

E até espinhela caída.

 

Viajar… Conhecer o mundo…

Tanto lugar neste mapa,

Pra não ficar iracundo,

Nem ficar mordendo a chapa.

 

O ADEUS DE IRANI

 

Numa Festa de Reis eu vi Irani,

Ela, aos poucos, de mim se aproximou,

Com a voz serena e a paz de um colibri,

No fundo dos meus olhos ela olhou…

E eu lhe falei de mim, e ela de si…

 

O seu semblante era uma tela santa,

Seu riso — um canto feito em poesia,

Um recital que a natureza encanta,

Combinando ternura e alegria.

E que harmonia! Que beleza! Tanta!…

 

E nos amamos…  Pude conhecê-la,

Mas veio o vendaval do mar da sorte

E dela me privou a minha estrela,

A busca do destino era mais forte.

Parti, em seu dia, no apagar da vela.

 

Meu castelo de areia desabou,

Ela foi se despedir e me viu partir,

Lembro ainda quando ela me acenou,

Guardo ainda o ar triste de Irani,

Que por muito, em minha alma me marcou.

 

Para mim fora um sonho de verão,

A última flor daquela primavera,

Tão passageira como um furacão.

Mesmo com todo o amor que ela me dera,

O cupido feriu meu coração.

 

… E viajei, cruzei os sete mares,

Não encontrei nenhuma cinderela.

Tempos depois, de volta pros meus lares,

Procurei Irani… indaguei por ela

Em seu antigo lar, noutros solares…

 

E depois que falei dos sonhos meus,

Alguém me mostra o rumo da capela.

Lá a vi com outro par no altar de Deus,

Como uma rosa ainda estava bela,

Olhou fundo em meus olhos… disse: “adeus!…”

 

O IDOSO ABANDONADO

 

É o idoso abandonado

Passarinho na gaiola,

É boiadeiro sem gado,

É cantador sem viola.

 

Tal como na noite fria

Ouvindo de lá do campo,

Só o canto da cotovia

No meio dos pirilampos.

 

É duro para quem resiste,

É a solidão comparada

Ao canto de um galo triste

Ao cair da madrugada.

 

JOSÉ E MARIA

 

Na estrada para Belém

Caminham José e Maria,

Um burrinho vai, também,

Pra ajudar na travessia.

Destas montanhosas vias

Desde lá da Galileia

Até a pátria do Miqueias.

 

Lá vão eles a caminho,

José guiando Maria,

Maria montando o burrinho;

Vai cumprir-se a profecia

Sobre o evento do Messias.

Lá na Belém da Judeia.

Assim previu o Miqueias.

 

KIT COMPLETO

 

Vem ali um engenho errante,

Escritório para ambulante,

Sempre um book a tiracolo

Sendo um net ou notebook,

O smartphone é outro truque

Pra evitar o torcicolo.

 

Tem uns chips variados;

Tem Oi, tem Claro e tem Vivo;

Tim também é um atrativo,

O interfone é mais um achado;

Vez consulta o dicioaulete,

Outra vez é a internet.

 

Um robot itinerante,

Uma infoshop ambulante;

Tudo ao alcance do bolso

E não vem mais por reembolso

Pois é só clicar no mouse.

Que é isto? É uma lanhouse?

 

Ipad, ipod, se resume

Ao que está no costume;

Tem o iphone outro atributo,

Mas o tablet é acessível

E por ser irresistível

É um líder absoluto.

 

Tem o softitunes, é ai tudo;

Aja ais, chega! Passa a Régua!

Que é também um soft; arre égua!

Pra isso eu não tenho estudo.

 

Uma mochila no seu dorso

Com pouquinho de esforço,

Já com outros apetrechos:

Moodem, drives, tudo anexo.

Pois hoje é bem diferente,

Mas é tudo coexistente.

 

Oh quanta modernidade!

Quando eu olho lá pra trás,

Lá no tempo dos meus pais,

Sem estas utilidades

Eu me vejo assim sem lógica

Numa feira tecnológica.

 

LAR DE MINHA MÃE

 

Eu ia pela rua vaga e solitária,

Vencendo o vento em direção contrária,

A caminho do nosso antigo lar.

O horizonte cismava em consumar,

No ocaso um espetáculo surreal,

Me fustigava a face um vendaval.

 

Cheguei e me pasmei por um segundo,

Observei, o silêncio era profundo,

Do portão velho a dobradiça chora,

Parece dizer-me: É o rapaz de outrora,

Veio à doce mãe, veio ouvir histórias

Guardadas como joias na memória?

 

Escuto cada canto que me assunta,

Depois penso, será que me pergunta:

— Onde andam as crianças barulhentas,

As pequeninhas faces macilentas?

Já dentro… me senti um estrangeiro,

Olho o quintal, o grande abacateiro.

Mais passos avancei, calado e frio,

Vi minha casa… um sacrário vazio.

 

 

Fui à sala, adentrei por um instante,

Ainda na parede ao fundo, a estante,

O som com sua estampa cor de anil

Nele repousa um disco de vinil,

Em que da aranha a teia laça o braço;

Pra outra sala entre os umbrais transpasso.

 

Parece o múrmur das vozes velosas

Entre passos gentis da irmã zelosa;

Da cozinha ao batente do portal

Ouço gritos das crianças no quintal,

Os alaridos dos casais argutos,

Ao menos é o que lá dum canto escuto.

 

E retorno em passadas taciturnas

Aos sons e as falas das reuniões noturnas,

E ao quarto onde a imagem de Maria

Numa banquinha tosca ali jazia:

Era minha mãe posta e veneranda,

Lembra que aqui a vida ainda encanta.

 

É que este é mais um canto de poesia,

Se tinha vida em tudo que fazia;

Como o jardim que gira os heliantos,

As lembranças que movem cada canto.

Ah, deixe-me florir este meu riso,

Quero o alegre chorar do chão que piso!

 

Lar de minha mãe! Cadê os seus amores?

A minha alma é também campo sem flores,

No seio morre-me a seiva do povir,

Veste-se de pesar brios do sorrir,

Mas ecoa aqui, dentro de minha alma,

Um canto de poesia que me ensalma.

 

AO MEU IRMÃO MANOEL

 

No seu natalício

 

Tu alçaste voo do sertão, tão novo,

Cedo deixaste o rio do Norte,

E na planície extensa lá dos pampas

Armaste a tenda do soldado forte.

 

Lá no rio Sul prestas-se a um povo.

Tem os meus parabéns, nobre guerreiro,

Oh paladino de mensagens tantas!

Sê feliz, mano, em solo hospitaleiro!

 

MAR DE MINHA VIDA

 

Mar! meu imenso mar, meu mar de minha vida!

Que mágoas diluídas no sal de tuas águas!

Quanta saudade foi deixada na partida,

Oh, quantas lágrimas tão doídas tu enxáguas.

 

Mar desta vida, leva no teu berço,

No dorso destas ondas moduladas,

O meu verso a remotos endereços

Vai com minha alma na curva ondulada,

Meu fado, minha rima compassada.

 

Dize que ela é amor e não é só porque é mulher,

Assim como és azul não só porque és o mar,

Que o céu é cor de anil tão somente porque é,

Porque senão não viveríamos para amar.

 

Passageiro de imenso carrossel,

Escrevo versos a quem não conheço,

Que venha a musa aqui, rosa-do-céu!

Que são cartas de amor sem endereço,

Que as faço nos meus versos com apreço.

 

Venham todas sentar aqui à minha mesa,

Tenho papel, a tinta e o verbo na memória,

Musas do paraíso, donde houver beleza,

Tenho algum verso pra compor alguma história.

 

Minha poesia com rima colorida

Com ondas de tristezas e alegrias,

Ela é tal como o mar da minha vida

Que traz a tempestade e a calmaria,

Toques de liberdade e nostalgias.

 

É que minha alma ela também respira e dorme,

E só não dorme assim tal como eu, porque é alma;

Enquanto em minha frente há uma estrada enorme,

Deixo aqui o meu verso inacabado e em calma.

 

MINHA ALMA BOÊMIA

 

Pega aqui, minha alma gêmea,

Minhas algemas e parte,

Se não sou livre, minha fêmea,

Dize, como poço amar-te?!

 

O que sou sem liberdade…

Um produto da robótica?

Sem minha própria vontade,

Sou mentira biológica.

 

Minha alma, minha alma gêmea!

Para de me controlar,

Solta minha alma boêmia,

Que assim poderei te amar!

 

MULHER ATUAL

 

Pensei uma mulher, bela alma,

Habitando neste planeta

Formosa, singela e calma,

Uma obra de arte completa

Que um anjo do céu ensalma.

 

Juntei a uma outra que é tieta

Que é inculta e espevitada,

Piririca… É um cometa;

Formei a mulher arretada,

Mas é um sonho de poeta.

 

Vai que essa mulher virtual

Talvez se encontre em novela,

Que não é a mulher atual,

Nem tieta, nem cinderela,

Só é uma mulher normal,

 

Para quem a ordem global

Traçou novos rumos pra ela

A elevou ao pedestal,

Mas no entanto por tabela

Lhe deu jornada brutal.

 

NAS AVENIDAS DA VIDA

 

Oh linda morena minha!

Oh minha morena linda!

Do meu sonho inda és rainha,

Rainha do meu sonho ainda.

 

Quando sozinha tu trilhavas

Nos batentes desta lida,

Eu, poeta, caminhava,

Nas avenidas da vida.

 

Era o meu caminho que ia,

E o teu caminho que vinha;

Na frente tinhas um guia,

Na fronte uma estrela eu tinha.

 

E o teu guia proferia:

— Aquele é tua metade!

E a minha estrela dizia:

— Aquela é tua deidade!

 

E o cupido conseguiu,

Que aquela morena singela,

Naquela tarde de abril,

Se atasse a minha costela.

 

NINHO

 

Desde manhã que voa um passarinho,

Passa alegre, e o dia todo me entretêm,

É setembro, é a postura que já vem,

Lá vai ele a construir o seu cantinho.

 

Canoro passarinho, quando o vejo

Dia-a-dia a trabalhar… tanto desvelo,

E bem feliz seu ninho assim tecê-lo,

Não resisto, pelos olhos eu gotejo.

 

Tu me lembras um tempo em nossa lida,

Quando eu e ela erguíamos um barraco,

Ali naquela margem do riacho.

 

Tivemos filhos, mas é a lei da vida,

Também foram cada um fazer seu lar.

Me conforta hoje o ouvir do teu cantar.

 

TU

Tu refletes fulgor no teu sorriso,

Que ilumina estes lábios teus em flor,

Inda conduzes a magia do amor

E o aroma dos jardins do Paraíso,

Um dia alguém ousou te conquistar,

Teve que atravessar o largo mar.

 

Sonho além… muito além do Gibraltar.

Sou eu aquele nauta e tu, a gaivota

Do marinheiro que perdeu a sua rota,

A andorinha que voou pra o despertar,

Que após vencer o vendaval pousou

Nos coruchéus da catedral do amor.

 

O AMANHÃ

 

Só com a fé na força do Messias,

É que se vence a larga travessia.

O amor foi nossa vida, nossas leis.

E hei de amar-te até que este meu grito

Retumbe pelas veigas do Infinito

“Na cumplicidade dos céus, talvez”.

 

Por vezes nos cercou o sofrimento,

Nos feriu de injustiça alguns momentos,

Não temos a resposta dos por quês.

Nós viemos aqui conhecer o amor,

Juntos para sonhar um dia melhor,

Amemos, que o amanhã não vem, talvez.

 

Se for você a se perder de mim,

Encontrarei seu cheiro de jasmim;

Você não vai deixar esta sua tez.

Eu lhe darei minha alma a esta questão;

Pra tão grande amor, uma razão?

Na noite delirante, mil, talvez.

 

Enfrentaria sozinho o meu exílio,

Esperando você num novo idílio;

Ao lembrar de você, sua placidez…

Sentiria este amor na imensidade.

No brilho deste olhar de eternidade

Você eu encontraria sem talvez.

 

E se na estrada formos separados,

E se for eu primeiro pro outro lado,

Estarei sem nenhuma dubiez

No portão, e lá esperarei você

E teremos respostas do por quê

E amaremos, então, sem mais talvez.

 

UM BARCO CHAMADO SAUDADE

 

Esta noite acostado à minha nostalgia,

Pensei em ti, e tive pena de lembrar

Das flores de nossa primavera, que dias…

E tive uma vontade imensa de indagar,

 

Se tu és ainda a lira que eu toquei,

Se és o amor por quem vivi,

A mesma rosa que eu beijei,

O mesmo amor por quem morri.

 

Se ainda tens o mesmo olhar, o mesmo riso,

Daquela que trilhou comigo os meus caminhos,

Sonhou comigo e que desceu o mesmo rio,

Pisou as mesmas pedras e os mesmos espinhos.

 

Dize se alguém te perguntar:

Vivo cantando a mocidade,

Sobre as ondas de um louco mar

Num barco chamado Saudade.

 

POR ONDE ANDAVAS TU

 

Quando eu via passar as tardes minhas,

Brancas mãos que ao vento me acenavam,

Cisnes que sobre o lago azul vogavam,

Faziam-me lembrar as andorinhas,

Quando eu via passar as tardes minhas.

 

Quando eu me via imerso ao luar,

E ouvia da noite um murmúrio vago,

Será que estavas em sereno lago,

Será que estavas mais pra divagar,

Quando eu me via imerso ao luar?

 

Eu sem voz tinha atadas minhas mãos,

Ainda ouvia roucas multidões;

Escapando dos ávidos leões,

Se via à frente só desertos vãos,

E eu sem voz, tinha atadas minhas mãos.

 

Por onde andavas tu, oh liberdade?!

Quando o fel da desgraça me atingia,

E eu triste atravessava a ventania,

Entre raios cortando a tempestade;

Por onde andavas tu, oh liberdade?!

 

PELAS MESMAS RUAS

 

Ah, se estivesse por aqui, na certa

Iria ver as ruas tão desertas;

Os pássaros daqui são desertores,

Destas fontes não se ouvem mais rumores

Sobre o homem que amou tanto uma mulher.

 

Não permanecem mais as violetas,

Já não voejam mais as borboletas,

Também não mais vieram beija-flores,

Cartazes não falaram mais de ardores

De um homem que amou tanto uma mulher.

 

A viola é uma criança doente

O sabiá não canta à sua frente,

No olho da laranjeira, ele se foi,

Qual o tempo em que ele era o seu herói,

Esse homem que amou tanto uma mulher.

 

Ah, se voltasse pelas mesmas ruas

Só para apagar estas horas cruas,

Recolhendo de volta os malmequeres,

Trazendo à sua fronte os seus dizeres:

“Ninguém mais pode amar tanto uma mulher”.

 

ORAÇÃO

 

Que nesta vida, dia-a-dia,

A cruz sagrada de Jesus

Seja-me sempre a minha luz;

Que seja o santo anjo, meu guia,

A tocha viva que conduz

Aonde estão os tons azuis

Do santo manto de Maria.

 

Pra que eu não fique em desalinho

Anjo meu, não me deixe só,

Afaste o mal do meu redor;

Quando findar o meu caminho

Leve-me à escada do Jacó,

E lá, entregue-me à Força Mor

Que eu agradeço o seu carinho.

 

ACRÓSTICO (À Rejane)

 

(R)Rogo a Ti, Divino Pai por

(E)Esta minha filha querida,

(J)Joia e primor nesta vida,

(A)Aonde no mundo ela for

(N)Na sua trilha aguerrida

(E)Esteja Tua mão, Senhor.

 

PRAIA DE MEUS AMORES

 

Ponta Negra, Ponta Negra

Oh, praia dos meus amores,

A curva do morro integra

Teu desenho e tuas cores.

 

Ponta Negra tão prazente,

Tu és dádiva divina;

Após a manhã fulgente,

Uma brisa vespertina.

 

Não sobraram sequer mágoas

De tuas antigas ressacas,

No verde de tuas águas

Tu curas urucubacas.

 

PRECONCEITO

 

Se contra a minha cor tu te revoltas,

Se por isto recusas-me o respeito,

Se teu peito carrega o preconceito,

Lembra-te, então, que o mundo dá mil voltas,

E numa poderás estar no leito,

E a despeito de tudo, se dá um jeito,

E aprenderás a dar reviravoltas.

 

Poderei levantar-te e dar-te a mão,

Verás que no cascalho a bruta mina,

Pode esconder a gema diamantina,

Então abrandarás teu coração;

Verás que o preconceito contamina,

E toda a espécie humana desafina;

Reflite, então, e venha dar-me a mão.

 

Não te esquece, se acaso tu és cristão,

De lições que deixou o Salvador,

Quem deu exemplo e para nós pregou

Que aqui neste planeta és meu irmão,

E mesmo assim se tu cristão não fores

Eu não me importo, em mim não há rancores,

E o preconceito em mim não vinga, não.

 

QUANDO VOCÊ NASCEU

 

(À minha neta Sofia)

 

Quando você nasceu,

As estrelas sumiram

E o dia amanheceu

E as janelas se abriram.

 

Quando você nasceu,

Tudo virou sorriso,

O lar que o choro encheu,

Tornou-se um paraíso.

 

Quando você nasceu

A festa já era sua,

O sino na igreja bateu,

Tudo murmura na rua.

 

Quando você nasceu

Seu pai – era loucura,

Sua voz emudeceu;

Sua mãe – era ternura,

Sua dor se enterneceu.

 

Quando você nasceu

Lucas Torres sorriu

O nome que já era seu

Com seu prenome uniu.

 

Quando você nasceu,

Veio como Deus criou

E assim permaneceu

Bela como uma flor.

 

Quando você nasceu

Tudo em torno mudou,

Meu peito estremeceu,

Saiu faísca de amor

 

Quando você nasceu

Tudo foi só alegria,

Todo mundo torceu:

Por seu mundo, Sofia!

 

RESTO DE FESTA

 

Ainda há um resto de festa nas calçadas

Que se dilui na morna madrugada;

Há um resto de sons e melodias;

Mas não há uma única vivalma

Momesca; A passarela é longa e calma.

Vão-se a busca de novas energias.

 

Há um resto de tédio solto no ar,

Mesmo que a cuíca só teime em flutuar;

Ruínas de fantasias, mas afinal,

Ainda há um resto de mim em ti, enfim,

Somando com o que há de ti em mim,

Já se sonha com um outro carnaval.

 

ROSA DE ABRIL

 

Eu te envio estas flores cor de anil

Pelo mar quente deste coração;

Pra integrar tua beleza feminil,

Que elas juntem-se a ti em adesão,

Oh graciosa e gentil Rosa de Abril!

 

Neste teu aniversário graças mil

Te almejo. Curte as horas com paixão,

Abraça a vida que pra ti sorriu,

Que tu és de Deus formosa criação,

Oh graciosa e gentil Rosa de Abril!

 

SE ME FOSSE PERMITIDO…

 

Ah, se me fosse permitido o meu desejo,

Quisera para ti que o inverno fosse leve,

Mas que te veja levitar por sobre a neve;

Pra rainha de meus castelos eu te elejo.

 

Ah, se atendido eu fosse nos apelos meus,

Pra ti seria a primavera mais florida,

Jardins de flores, as mais belas margaridas,

Seriam tod’os sonhos meus somente teus.

 

E se pra mim é consentido um bom sonhar,

Sonhar-te-ei em minha noite de verão

Com um luar, um mar azul e um violão,

E uma canção feita de amor pra te aclamar.

 

Ah, se fosse eu de algum prodígio seu patrono,

Eu faria para ti uma tarde escarlate,

Um chão de flores, um riacho e uma cascata

Pra coroar todo o esplendor do teu outono.

 

AO MEU IRMÃO HILDO

 

Deus que fez a luz pra nos tirar da sombra,
Deus que fez Sol pra cultivar a alfombra,
Deus que fez a vida pra se ter a paz.
Deus sempre ajuda um peregrino audaz!

 

Deus, ponha a bênção ao guerreiro irmão!
Deus, traga-o sempre com saúde e são.

Deus que estende a mão, traz conforto e paz,
Deus sempre ajuda um peregrino audaz!

 

ÚLTIMA FLOR DE DEZEMBRO

 

(Noite de Ano Novo – 2014, no Face Book)

 

Seus votos com gratidão eu absorvo

E passo aqui a fim de desejar

Para todos um próspero Ano Novo,

Se a paz é sempre um fim a conquistar,

 

Eu torço por vocês e a Deus eu louvo;

Que sempre se conjugue o verbo amar,

Que reine um mundo melhor pra cada povo

Que a Luz divina esteja em cada lar.

 

Eu sei que não estou aqui à toa

Esta página é exemplo, eu me lembro,

De vocês, li tantas mensagens boas…

 

Que se reforce o amor já conquistado,

Se partilhe a última flor de dezembro,

Se cumpram sonhos inda não realizados.

 

TAMBÉM VOU PRA PASÁRGADA

 

Dádiva, diva, divina,

Deísa, deia, deidade;

Tua beleza que fascina

Me matando de saudade…

Me marca na alma… É a sina.

 

Forma por Deus esculpida,

Vivemos a primavera

No verde vale da vida,

Foi minha última quimera…

Onde andará, Margarida?

 

Vem e abraça-me forte,

Te espero na Ilha do Amor;

Vem, segue a Estrela do Norte,

Lá pra Pasárgada, eu vou,

Se encontra lá, minha sorte.

 

TARDES DE VILA VELHA

 

Vila Velha, Vila Velha,

Da Enseada de Inhoá,

Olhando para ilha bela… (*)

Quantas lembranças de lá,

Porta aberta, uma aquarela.

 

Lá no do morro da Penha

Velando de sentinela,

Cravada em incultas penhas,

A monástica capela,

Onde o levita se empenha.

 

E no alto doutra colina

Eu via de lá do plantão

A trilha das peregrinas

Traçando curvas no chão,

Na romaria vespertina.

 

Vila Velha, Vila Velha,

Sonhos de tempos atrás,

Solo da doce Isabela,

Tudo que amor foi capaz,

Ela por mim, e eu por ela.

 

 

Tudo era lindo, Isabela!

Talvez te lembres airosa,

Se é que tua alma revela,

Aquelas tardes saudosas

Qual contos de Cinderela.

 

Quando para folga o apelo

Da corneta tagarela,

Eu ia soltar teu cabelo

Daquela fita amarela

Cuidados com teu desvelo.

 

Lembras-te de que falei,

No cais daquela ilha bela?

Minha alma pra ti deixei,

Tu te lembras, Isabela?

O amor era nossa lei!

 

Os grumetes entoavam,

Do convés canções singelas

Que minha voz entalavam;

Já era a saudade, Isabela,

Que aquelas vozes soavam.

 

E o vento soprava forte,

Teus negros cabelos voavam,

Seriam os cantos da sorte

Que aquelas ondas tocavam

Pra minha estela do norte?

 

No mar, a rosa vermelha,

Lembras-te acaso, Isabela?

Oh filha de Vila Velha!

Sorriste ainda mais bela,

Que rosa em ti se espelha.

 

E eu te falava em apelos:

“Tu levas minha alma, alma bela!

Nas ondas destes cabelos,

Do teu cabelo, Isabela?!…”

Era um sonho… Meus castelos…

 

Pude ao longe vislumbrar

Teu vulto, um ar de gazela,

Com tua echarpe acenar;

Como eras bela, Isabela,

Com os teus olhos de mar!…

 

Quando aquela nau zarpou,

Estavas em minha sina,

Mas o destino mudou

O que sonhei na colina,

Sonho que o vento levou…

 

(*) Uma referência à Ilha de Vitória (ES).

 

PAI

 

(No dia dos pais – 2015)

 

Oh pai, a sua ausência não apaga

A presença da mão que nos afaga,

Naquela sala a cadeira está vazia,

Mas persiste a voz forte que me guia.

 

Seu exemplo inda é minha aprendizagem,

Cada vez que reflito a sua imagem

Ouço o recado que me quis passar,

E sinto o abraço que não pude dar.

 

Das colinas do céu ouça-me, pai:

Põe-se o sol, o crepúsculo se esvai,

Mas fica a marca da sombra, a miragem,

E esta é a marca que guia minha viagem.

 

O QUE SÃO ESTES MEUS VERSOS

 

Eu não sei aonde vão estes meus versos,

Ora vão qual violão rondando ao léu,

Ora andam em risonhos universos,

Qual crianças passeando em carrossel.

 

São euforias nas horas extasiadas,

Flores jogadas à mulher querida,

Ou lágrimas em pranto derramadas

No momento calado da partida.

 

 

Não sei o que dizem estes meus versos,

Ora dizem que eu digo o que eles dizem,

Ora dizem que são inverso do inverso

Do que eu digo e que peço que reprisem.

 

Ah, eu não sei o que são estes meus versos!

Sei que enquanto eu procuro os seus porquês,

Os que forem de luz, cantos dispersos,

São confetes jogados pra vocês.

 

FIM

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LEMBRAR-ME-EI DE TI NAS TARDES MINHAS

Foste o primeiro lírio vicejante
No solo ingrato em que a dor nos subtrai,
A primeira esperança de meu pai
Que seguiu o farol do bom andante.

Ave que sobre os mares infraternos
O ramo da ventura conduzia,
Estrela que entre as névoas reluzia
Nos inclementes temporais de inverno.

Tu eras o guerreiro, o paladino,
Um presente de Deus, nosso porvir,
Mas a tragédia veio a te ferir,
Mano, e varou-te a flecha do destino.

Quando eu vir os bem-te-vis às tardezinhas,
Já não vou ter mais tua alegria,
Mas lá de tua área em qualquer dia
Lembrar-me-ei de ti nas tardes minhas.

(Antônio Fernandes do Rêgo)

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AO MANOS MANOEL E JOSÉ RÊGO
(Em visita ao nosso irmão Hildo hospitalizado)

São como cisnes de cerúleo lago
Que vêm guiados pelos bons ventos
Que em vez de ouro e a mirra dos Reis Magos
Trazem ao nosso irmão o acalento.

Um – é o paladino lá dos pampas
Que vem da tenda do missionário,
O outro – águia que na selva acampa
Lá do progresso novo emissário.

Vieram dos confins dos estremos,
Deixam-nos próximos e muito unidos
Mas a única palavra que temos
É que estamos de corações partidos.

(Antônio Fernandes do Rêgo)

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PRIMEIRO BEIJO

Lembro-me bem do meu primeiro beijo:
Louca, tu me expuseste a boca escarlate,
Afoito e sem conter o meu desejo,
Fiz deste amor contido o nosso enlace.

(Antônio Fernandes do Rêgo)

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TROVAS

A brisa balança o galho
O galho sustenta o ninho
É o ninho doce agasalho
Dos filhotes passarinhos.

Vai voando o passarinho
Leva ao ninho um grão de milho
Cavalgando pro ranchinho
Levo o leite pro meu filho.

(Antônio Fernandes do Rêgo)

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ESCUTA O POEMA

Não, fales, não digas
Que tudo acabou,
Se cai uma lágrima
Não há um amor?

Uma luz se apaga,
Mas vem o luar,
Se cai uma noite
Há um dia a raiar.

Há ainda o perfume,
Depois que tu fores,
Que me leva a ti
Em todas as flores.

E as tuas pegadas
Marcadas no chão
São marcas, também,
No meu coração.

Fale mais de amor,
Não fale da dor
De amor que acabou,
Me faz um favor!

Mas nunca me digas
Que não tem raízes!
Ficam as lembranças
Das coisas felizes!

O céu manda em nós
E manda eu te amar,
Se manda que amemos,
Ajuda a aceitar!

Não fales, não digas
Que tudo acabou,
Que eu deixo pra ti
Um canto de amor.

Não vá mais chorar,
Se o céu deu o tema,
O tempo e um espaço
Escuta o poema:

Se não fui o herói
Que fez te exaltar-te,
Mas sonhei … sonhei…
Fui capaz de amar-te.

Mesmo que algum dia
O esteio balance,
Não ruirá a ponte
Do nosso romance.

Se olharmos o ocaso
Quando o sol se pôr,
Nós vamos dizer
Que valeu o amor.

(Antônio Fernandes do Rêgo)

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DOS “CANIONS” DO XINGÓ

Entre os paredões rochosos
Destes “canions” do Xingó,
Em vez dos violões chorosos
As safronas do forró;

Como as contas de um rosário
Teço estas belezas mil
Para o teu aniversário
Neste primeiro de abril;

São meus parabéns, Marília,
Neste cenário tão rico
Quando se faz maravilha
Das águas do “Velho Chico”.

Antônio Fernandes do Rêgo
Canindé do São Francisco/SE – 2016